'Lembra Dele?' Ramirez se arrepende de ter colocado Rivellino para correr Uruguaio recorda episódio que virou um dos folclores do Maracanã: 'Não é meu cartão de visitas'. Hoje técnico, ele usa cone para orientar os jogadores

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Por Bernardo PomboRio de Janeiro
Ao partir em disparada para agredir Rivellino após o apito final da derrota do Uruguai para a Seleção Brasileira, no dia 28 de abril de 1976, no Maracanã, Sérgio Ramirez entrou para o folclore do futebol. Os momentos de tensão daquele dia deram lugar a arrependimento, gargalhadas e boas histórias. Pouco mais de 35 anos depois, o ex-lateral, hoje com 59, recorda o dia de 'coiote' atrás do 'papa-léguas' como uma bomba de hormônio que explodiu, e garante:
- 'Não é meu cartão de visitas.
Sergio Ramirez persegue Rivelino em 1976 no Brasil 2 x 1 Uruguai (Foto: Arquivo / O Globo)Sergio Ramirez persegue Rivelino em 1976, após a vitória do Brasil sobre o Uruguai (Foto: Arquivo / O Globo)
Natural da cidade da Treinta y Tres, na fronteira do Uruguai com o Rio Grande do Sul, Ramirez conviveu desde cedo com costumes brasileiros. No pequeno município uruguaio, a maioria compreende a língua portuguesa, e a paixão pelo futebol brasileiro chegou cedo, principalmente com a possibilidade de sintonizar as rádios gaúchas e acompanhar o noticiário dos grandes craques.
Ramirez, hoje com 59 anos (Foto: Arquivo pessoal)Ramirez, hoje com 59 anos (Foto: Arquivo pessoal)
Na adolescência, Ramirez colava figurinhas na parede do quarto, e um dos jogadores admirados era Roberto Rivellino, que na época desfilava seu talento no Corinthians e na Seleção Brasileira. Quis o destino que fã e ídolo protagonizassem, anos depois, uma das cenas mais famosas do Maracanã.
Tudo começou em fevereiro de 1976, no jogo contra o Uruguai, em Montevidéu, válido pela Taça do Atlântico, competição disputada por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Rivellino deu um pisão em Muniz e a confusão foi formada. O jogador brasileiro acabou expulso. No jogo seguinte entre as duas equipes, no Maracanã, dois meses depois, os ânimos estavam mais exaltados quando, já no final da partida, Zico partiu driblando, deixando muitos uruguaios para trás. Só restavam dois para que o Galinho chegasse na cara do gol: Ramirez e Nil Chagas. O primeiro não teve dúvidas e deu uma entrada forte para parar a jogada. Os momentos seguintes não saem da memória de Ramirez.
- Eu tive que parar o Zico. Dei no meio dele, fiz uma falta desqualificante mesmo. Anos depois, ele me falou que eu quase o matei, e a gente se divertia com isso. O Nil Chagas estava na sobra. Ele veio andando, se agachou e deu um chute no Zico. Formou-se aquele bolo de gente, empurrões, discussão. O Revetria estava atrás de mim e bateu no Rivellino por baixo das minhas pernas. Ele achou que fui eu e revidou, dando um soco na minha cara. Comecei a sangrar na boca. Era falta para o Brasil. Formamos a barreira. E o sangue escorrendo. O Marco Antônio bateu na trave. Eu saí logo para puxar o contra-ataque, mas o árbitro encerrou o jogo. Eu já estava lamentando a derrota quando olho para o lado e vejo o Rivellino. Tinha 24 anos, cheio de hormônio, adrenalina. Lembrei da agressão e saí correndo atrás dele - contou Ramirez.
Sérgio Ramirez e Júnior no Flamengo  (Foto: Divulgação / Arquivo Pessoal)Ramirez e Júnior, antes de jogo do Flamengo em 1977 (Foto: Divulgação / Arquivo Pessoal)
O ex-lateral lembrou que por pouco não levou a pior.
- Quando ele caiu na escada do vestiário, caí no gramado, passei a tomar pancada de todo mundo. Até o pessoal da imprensa me bateu com aquelas baterias enormes que eles usavam antigamente. Levei chute, soco, cotovelada, tudo. Brasileiro tem mania de dar rasteira. Nós, uruguaios, estamos mais para o boxe. O nosso preparador físico era um urso. Conseguiram derrubar o cara, ele chegou a desmaiar. Eu apaguei, não lembrava de mais nada. Fomos levados para a delegacia e, três horas depois, fui liberado.
O que doeu mais, no entanto, não foram as pancadas, como recordou Ramirez.
- Eu fiquei com muito hematoma nas costas. No hotel, fui direto para o chuveiro e, quando a água quente bateu nas costas, ardeu demais. Vi estrelas. Parecia que estava levando choque.
O reencontro não demorou. Um ano depois (1977), Ramirez foi contratado pelo Flamengo, clube pelo qual guarda enorme carinho e grandes lembranças. Quando realizava exames na Gávea, a Seleção Brasileira treinava no local. Ao ver Rivellino, então craque do Fluminense, Ramirez não pensou duas vezes:
Eu pedi desculpas para ele, disse que era romântico, que gostava
de bolero, de violão. Ele me respondeu dizendo que gostava
de passarinhos. Nos abraçamos, foi tudo muito legal. Hoje me arrependo muito daquilo.
Não é meu cartão de visitas"
Ramirez, sobre o  primeiro reencontro com Rivellino depois da confusão
- Eu pedi desculpas para ele, disse que era romântico, que gostava de bolero, de violão. Ele me respondeu dizendo que adorava passarinhos. Nos abraçamos, foi tudo muito legal. Depois, no Fla-Flu seguinte, fomos recebidos por duas mulatas gigantescas com buquês de flores para selar a paz. Tudo na base da alegria. Quando eu saía para marcar o Riva, ouvia os gritos da geral: 'Pega ele, pega ele.' A gente achava graça. Hoje me arrependo muito daquilo. Não é meu cartão de visitas.
Pedidos para provocar Rivellino antes dos Fla-Flus
O lateral-direito jogou com Junior, Zico e até Vanderlei Luxemburgo, entre outros. E teve que ser muito esperto para não cair nos pedidos rubro-negros de provocar Rivellino para promover os Fla-Flus.
Sérgio Ramirez no Flamengo em 1977 (Foto: Divulgação / Arquivo Pessoal)Ramirez no time do Fla que tamém tinha Cantarele,
Dequinha, Júnior, Adílio, Claudio Adão e Zico
(Foto: Divulgação / Arquivo Pessoal)
- Na reunião para acertar os detalhes do meu contrato, o Márcio Braga (então presidente do Flamengo) me pediu para dar aquelas declarações bombásticas, dizendo que eu tinha acertado com o Flamengo para completar o que não tinha feito, tudo na base da provocação sadia para promover os jogos. Mas nunca aceitei.
Num domingo chuvoso, mais e mais pedidos.
- Certa vez, o Márcio Braga, em vez de pagar bicho, ofereceu participação de 20% na renda dos jogos. Era um dinheiro bom. Teve um jogo em que o Mozer conseguiu comprar um carro. Num domingo de 1978, chovia muito de manhã no Rio. Tinha Fla-Flu horas depois. Nós estávamos na concentração, em São Conrado. Uma chuva desgraçada. Havia um posto na concentração com radialistas da Rádio Tupi e da Globo que ficavam lá. No baralho, todo mundo dizendo que ia perder muito dinheiro com a chuva, que ia pouca gente no jogo. Aí me chamaram e me disseram: você vai descer, chamar os repórteres e vai dizer que vai pegar o Rivellino no jogo. O Junior botou a maior pilha. Mas lógico que eu não falei nada. Jogamos vários Fla-Flus contra e nunca houve problema nenhum.
Sérgio Ramirez e Júnior na comemoração (Foto: Divulgação / Site Oficial)Ramirez toca violão durante caranguejada na casa de Junior. Atrás, o zaguiro Mozer (Foto: Arquivo pessoal)
As brincadeiras continuaram mesmo após o encerramento da carreira de ambos. Cinco anos mais novo que Rivellino, Ramirez sempre era chamado para marcá-lo nos jogos de masters realizados no Paraná e levava a melhor em função da diferença física. O ex-lateral, que até hoje vive em Curitiba, reencontrou Rivellino pela última vez em 2003, numa homenagem a ex-jogadores em Porto Alegre.
Um dos grandes amigos é Junior, comentarista da TV Globo, de quem lembra um caso curioso:
- O moicano da época eram os cabelos 'Black Power'. A gente arrumava o penteado com garfo.
No primeiro clube como técnico, Luxemburgo bate de frente com dirigente
Após a passagem pelo Flamengo, onde conquistou três títulos do Campeonato Carioca, Ramirez foi emprestado para o Independiente, da Argentina. Voltou em 1980 para o Brasil, para defender o Sport. Em 1981, se transferiu para o Ferroviário, do Ceará, e, em 1982, integrou o bom time do Campo Grande-RJ, que conquistaria a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. O técnico era Vanderlei Luxemburgo, que assumia o seu primeiro clube na nova função, após parar de jogar. Na época, Ramirez já conhecia a personalidade forte de 'Vandeca', como era chamado.
Eu fiquei com muito hematoma. No hotel, fui direto para o chuveiro e, quando a água quente bateu nas costas, ardeu demais.
Vi estrelas. Parecia que estava levando choque"
Ramirez, sobre o primeiro banho após a pancadaria no Maracanã
- O Vanderlei sempre foi um cara bacana, no Flamengo eu conversava muito com ele, me emprestou violão, fui várias vezes na casa dele. Como treinador, sempre foi disciplinador. A gente foi jogar em Curitiba pelo Campo Grande e havia um diretor que ninguém gostava, muito metido, dono de si, queria se meter em escalação, ameaçava rescindir contrato. Perdemos um jogo por uma diferença de um gol. Nosso time era de veteranos, cheio de jogadores experientes. Estávamos no hotel, lá pelas onze e meia da noite, e o Vandeca convocou uma reunião. Reuniu a gente e o diretor e pagou geral, dizendo que quem mandava era ele, que isso, que aquilo.
Vanderlei confirmou a história.
- Era o Constantino, chamado de Tino. Ele tinha mania de ficar no banco durante os jogos. Era um jogo à noite, e ele começou a pegar no pé do Orlando Lelé. O Tino ficava: "Pô, Vanderlei, olha o Orlando." Estávamos perdendo de 1 a 0, fomos para o intervalo. Na volta, ele continuou reclamando do Orlando. Aí comecei a ficar 'pê' da vida. Tudo estava fluindo, o Lelé errou um lance, e o Tino falou de novo. Mandei ele ficar quieto, e disse que quem mandava no time era eu. Voltamos para o hotel e, já tarde, convoquei uma reunião com os jogadores. O Tino estava, disse que só continuaria se fosse respeitado. Disse para ele que meu pai me ensinou a ser homem. Ele disse que seria do jeito dele, então disse que estava fora. Fui embora. Acabou que eles foram campeões - recordou Luxemburgo.
Ao se aposentar como jogador, Ramirez, a exemplo de Luxemburgo, passou a se aventurar na função de treinador. Trabalhou no Colorado, Pinheiros, União da Vitória, Maringá, Cascavel, Foz do Iguaçu, Paraná, Coritiba, Atlético-PR, Marcílio Dias, Criciúma, Rio Branco de Americana, Santo André, Araçatuba, Santa Cruz, Paysandu, Sampaio Corrêa, Ceará, Inter de Limeira, São José, Joinville, Avaí, Ituano e Brasil de Pelotas.
Sérgio Ramirez no Brasil de Pelotas (Foto: Divulgação / Site Oficial)Ramirez usa cone para orientar os jogadores do Brasil de Pelotas (Foto: Carlos Insaurriaga / Divulgação)
Na última equipe, Ramirez acabou prejudicado por uma decisão do STJD que tirou seis pontos do clube na Série C em função da escalação irregular do lateral-direito Cláudio. O Brasil acabou rebaixado para a Série D, mas a passagem de Ramirez, mais uma vez, entrou para o folclore do futebol. O treinador usou em vários jogos um cone para orientar os jogadores.
- É uma necessidade quando tem muito público, muito barulho. Mas vou entregar a rapadura. É proibido. Em alguns lugares não deixam. Em outros passa despercebido.
Com muitos anos de futebol, Ramirez sabe que o folclore do futebol é tão valioso quanto os títulos. O dia de coiote atrás do 'papa-léguas', hoje, é tratado como algo curioso e engraçado. Mas o choque com a água quente nas costas ele não esquecerá, jamais.
* Colaborou Janir Júnior

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